quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012
- Sobre o tempo...
Todo dia é uma luta surda, silenciosa, dissimulada. Uma peleja que tomamos parte e que sabemos que vamos perder, mas ainda assim, lá estamos: firmes como prego em polenta. A criança, desde que nasce, já trava essa batalha silenciosa, pois a morte é realmente uma doença sexualmente transmissível e desde que nascemos, começamos a morrer. Assim, todos nós, brigamos contra o tempo, enquanto este desenha linhas em nossa face, vai nos deteriorando células e, com elas, um pouquinho da visão hoje, da audição amanhã.
Nada com que se preocupar. Afinal, a vida está aí, carpe diem e coisa e tal. Por mais que a gente dê risada, se divirta, procure os amigos, veja o pôr do sol no Guaíba, ainda assim os ladrões de tempo estão por aí, para nos roubar este ar precioso que nos oxida e que nos faz viver. São as filas no mercado, no banco, na espera dos ônibus, das reuniões, nos telefonemas que a gente quer e não chegam e nos que chegam e a gente não quer, tempo que vai se esgotando, vida que vai se esvaindo.
Eu gostaria de ter mais tempo. Gostaria de poder jogar no PC, gostaria de estudar mais, ler mais, escrever mais. Eu gostaria de cantar mais, tocar mais violão. Gostaria de poder desenhar mais, pintar mais, coisas que eu gosto de fazer e acabo quase nunca fazendo.
Não que eu não faça essas coisas, mas acontece que a gente perde tanto tempo fazendo coisas que não gosta que acaba tendo que optar, sorteando as coisas a fazer, porque o tempo é tão curto. Primeiro, as obrigações, depois as responsabilidades.
Na mitologia grega, o titã Cronos, governante do céu, era casado com Réia e, quando seus filhos nasciam, ele os devorava. Assim ele fez com Fera, Hades, Poseidon, Héstia, Demeter... Quando foi devorar Zeus, seu sexto filho, este foi salvo por Réia, que deu um potro pra ele comer. Zeus cresceu, ficou adulto, enfrentou seu pai e fez ele vomitar seus irmãos. Iniciou-se a guerra dos deuses contra os titãs e estes últimos perderam. Zeus, posteriormente, partilhou o universo com seus irmãos: Poseidon ficou com os oceanos, Hades com o mundo dos mortos e ele mesmo, com o céu.
Pra quem não ligou o nome à pessoa, Cronos é o tempo (cronômetro, cronologia, etc.). Assim era e assim é: vai nos devorando desde que nascemos.
Não perca seu tempo. Não doe ele a gente chata, a trabalhos e situações maçantes, não perca seu tempo esperando pessoas e coisas que não valem a pena. Ontem eu estava jogando bolinha de gude com a piazada na São Tomé, em Viamão; hoje estou sentado na frente do micro, com ar de homem sério, cabelos grisalhos...
Se um visitante do blog leu este texto até aqui, meus sinceros agradecimentos. Se desistiu de ler, não tem problema, eu entendo. Não teve tempo.
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
- Desenterrando uma banda
Bah, alguém aí já ouviu falar em Shocking Blue? Putz, uma pena. Essa banda não recebeu o crédito que merecia. Esses dias, ouvi um monte de músicas da época disco. Daí fiquei ouvindo Tina Charles, Roberta Kelly, Boney M e, lá no meio, achei uma que mais ou menos destoava do lance disco: Venus, do Shocking Blue. Claro que eu já conhecia a música, todo mundo que tem mais de 30 (ok, 40 anos) acabou ouvindo um dia, mas eu nunca tinha notado que, ouvindo essa música fora do contexto, era um rock bom!
Bueno, fui pro youtube, assisti o clip e achei aquilo meio tosco: o pessoal mandando ver num playback, a guria do vocal meio louca pra rir. Ouvi outras músicas e a qualidade ia aumentando a cada audição: os caras eram competentes paca.
Uma busca no google vai comprovar que não tem quase nada sobre a banda no Brasil, nem no resto. Shocking Blue foi uma banda holandesa, formada em 67. No começo, Fred de Wilde era o vocal, acompanhado por Robbie van Leeuwen, na guitarra e cítara; Klaasje van der Wal no baixo e Cor van der Beek na batera. O disco (tri bom) fez o pessoal ficar meio famoso na Holanda. Um ano depois, Mariska Veres entra no vocal, fazendo toda a diferença. Dos 70 em diante a banda fica conhecida no mundo inteiro pelo hit Venus, fazendo turnês nos EUA e pela Europa. A discografia conta com 12 álbuns e 41 singles! Como é que pode uma banda com um trabalho vasto e grande competência não ser lembrada?
Só o azar pode explicar isso... O número de singles dá pra mostrar que não é uma banda de um só hit. A música Love Buzz, primeiro single do Nirvana e, depois, remixada no álbum Bleach, é do Shocking Blue!
Bom... A vocalista Mariska Veres morreu em 2006, aos 56 anos, de câncer (
terça-feira, 2 de agosto de 2011
- Wolfgang Amadeus Mozart
Joannes Chrysostomus Wolfgangus Theophilus Mozart, nasceu em 27 de janeiro de 1756, na Áustria. O nome Theophilus (traduzido como “Gottlieb”, em germânico, encontrado em algumas biografias do cara) significa "amante de deus" ou "amado por deus". "Amadeus", é a versão latina deste nome. Já o sobrenome Mozart é datado do século XIV, aparecendo também como Mozarth, Motzhart, Mozhard ou Mozer. Muitos de seus membros se dedicaram à cantaria (pedras lavradas, usadas em lugar dos ladrilhos) e construção. Alguns foram artistas. Wolfgang Amadeus Mozart foi o maior deles.
Seu pai, Leopold Mozart, era músico e professor de violino. Era segundo mestre de capela da corte do arcebispado, servindo diretamente ao Príncipe-Arcebispo. Desde cedo Leopold viu que o guri dele tinha um talento fora do comum e aos quatro anos Wolfgang já sabia tocar cravo e violino e já estava compondo peças, interpretadas em dupla com sua irmã Maria Anna, apelidada de Nanneri. Leopold fez uma espécie de Sandy e Júnior com os filhos e levou a gurizada pra uma turnê na Europa. Onde passavam, o pessoal se apaixonava pelos dois, mas o talento do guri acabou ofuscando o talento da irmã.
É que o cara era muito bom mesmo. Em Londres, entrou em contato com a música de Haydn e ficou camarada de Johann Christian Bach, filho do Johann Sebastian Bach. Tocou pra Rainha da Inglaterra e encantava todas as cortes que visitava. Leopold encheu os bolsos e Wolfgang ganhava uma enorme fama.
E o guri crescia...
Agora, a gente tem que imaginar o contexto da música, na época. Primeiro, tem que se ter em mente que “música clássica” tem dois sentidos, dependendo de quem fala. Pra maioria do pessoal, “clássica” engloba tudo que é erudito. Mas, na real, a música clássica só foi composta entre 1750 e 1810, incluindo aí Haydn, Mozart, e as composições iniciais de Beethoven – antes disso fica o “Período Barroco” e depois o “Romântico”. Naquela época, o músico vivia a serviço da alta nobreza, e não passava de um criado que, depois de fornecer música para fundo de jantares e conversas, ia jantar na cozinha com os demais empregados da casa. Para agradar os seus patrões, precisava seguir as tradições musicais ou levava um pé na bunda. Não se podia criar nada fora das estruturas tradicionais. Haydn, por exemplo, era um sujeito que aceitou bem esse trato e cumpriu muito bem as suas obrigações. Já Wolfgang Amadeus Mozart não aceitou estes limites. O cara sabia o talento que tinha e era dono de uma rebeldia natural e uma cara de pau sem tamanho: Amadeus foi sem dúvida o primeiro roqueiro do mundo!
Não, ele não queimou pianos como o Jerry Lee. Ele mudou a música e a forma como a gente conhece. Continuando...
Quando volta pra sua cidade, Salzburgo, ele é nomeado o violinista principal corte do arcebispado, mas o Príncipe-Arcebispo agora é outro: muito mais rígido e sem frescura: meio que decretou que as viagens e as invenções musicais deveriam acabar. Ou Amadeus andava na linha ou...
Wolfgang tinha 13 anos. Angustiado, fica quatro anos no emprego, depois larga tudo e sai pela Europa, sentindo o ventinho da liberdade na cara. Acaba se apaixonando pela cantora Aloysia Weber, mas não é correspondido. Cinco anos depois, ele casa com a musicista Constanze Weber, irmã mais nova de Aloysia. Aos 23 anos ele volta pra Salzburgo com um monte de composições, mas o Príncipe-Arcebispo o escorraça na corte, expulsando-o a pontapés.
O gênio estava pagando preço alto pela obstinação em se manter fiel aos seus princípios. O cara passa a sentir na pele o desprezo da sociedade vienense que não vibrava mais com suas obras. A grande ópera As Bodas de Fígaro foi um fracasso financeiro. Em compensação, a obra foi bem recebida em Praga, o que levou à encomenda de outra ópera: Don Giovanni. Entre os tchecos foi um sucesso, mas em Viena, foi considerada “mais uma bosta do Amadeus”.
A situação econômica de Mozart piora e a fama desaparece. Quando estava na merda absoluta, um camarada maçom (isso mesmo, Amadeus foi iniciado em 14 de Dezembro de 1784 na Loja Zur Wohlthätigkeit) encomenda a ele uma ópera para o povo. A Flauta Mágica estreou triunfante em um pequeno teatro popular na periferia de Viena. Depois disso, recebeu a encomenda de duas outras composições de vulto, o Réquiem, de um solicitante que lhe exigiu sigilo sobre a composição e desejava permanecer anônimo, e a sua última ópera, A Clemência de Tito, estreada em Praga com muito aplauso. Foi ali, em Praga, que caiu doente e nunca mais recobrou a saúde. Em novembro de 1791, ficou de cama e recebeu atendimento médico. Em dezembro pareceu melhorar, e até tocou partes do Réquiem inacabado com alguns amigos. No dia 4 teve uma piorada violenta, chamaram às pressas o médico, mas deu pra bola: lá pela uma da manhã de 5 de dezembro de 1791, o rebelde Wolfgang Amadeus Mozart morreu.
Foi velado na catedral em 6 de dezembro e foi enterrado numa vala comum no cemitério da Igreja de São Marx, nos arredores de Viena, sem ninguém a acompanhá-lo. Talvez Salieri (vá ver o filme Amadeus), Van Swieten e o aluno Süssmayr (que um tempo depois completou o Réquiem) tenham acompanhado o enterro. Não foi erguida nenhuma lápide e o local exato da tumba pra sempre vai ser desconhecido. Os obituários foram unânimes em reconhecer a grandeza de Mozart, os maçons fizeram celebrar uma missa suntuosa no dia 10 e publicaram o elogioso sermão proferido em sua honra. Vários concertos foram dados em sua memória, e alguns em benefício de Constanze. Em Praga, as homenagens fúnebres foram ainda mais grandiosas do que em Viena.
Seu pai, Leopold Mozart, era músico e professor de violino. Era segundo mestre de capela da corte do arcebispado, servindo diretamente ao Príncipe-Arcebispo. Desde cedo Leopold viu que o guri dele tinha um talento fora do comum e aos quatro anos Wolfgang já sabia tocar cravo e violino e já estava compondo peças, interpretadas em dupla com sua irmã Maria Anna, apelidada de Nanneri. Leopold fez uma espécie de Sandy e Júnior com os filhos e levou a gurizada pra uma turnê na Europa. Onde passavam, o pessoal se apaixonava pelos dois, mas o talento do guri acabou ofuscando o talento da irmã.
É que o cara era muito bom mesmo. Em Londres, entrou em contato com a música de Haydn e ficou camarada de Johann Christian Bach, filho do Johann Sebastian Bach. Tocou pra Rainha da Inglaterra e encantava todas as cortes que visitava. Leopold encheu os bolsos e Wolfgang ganhava uma enorme fama.
E o guri crescia...
Agora, a gente tem que imaginar o contexto da música, na época. Primeiro, tem que se ter em mente que “música clássica” tem dois sentidos, dependendo de quem fala. Pra maioria do pessoal, “clássica” engloba tudo que é erudito. Mas, na real, a música clássica só foi composta entre 1750 e 1810, incluindo aí Haydn, Mozart, e as composições iniciais de Beethoven – antes disso fica o “Período Barroco” e depois o “Romântico”. Naquela época, o músico vivia a serviço da alta nobreza, e não passava de um criado que, depois de fornecer música para fundo de jantares e conversas, ia jantar na cozinha com os demais empregados da casa. Para agradar os seus patrões, precisava seguir as tradições musicais ou levava um pé na bunda. Não se podia criar nada fora das estruturas tradicionais. Haydn, por exemplo, era um sujeito que aceitou bem esse trato e cumpriu muito bem as suas obrigações. Já Wolfgang Amadeus Mozart não aceitou estes limites. O cara sabia o talento que tinha e era dono de uma rebeldia natural e uma cara de pau sem tamanho: Amadeus foi sem dúvida o primeiro roqueiro do mundo!
Não, ele não queimou pianos como o Jerry Lee. Ele mudou a música e a forma como a gente conhece. Continuando...
Quando volta pra sua cidade, Salzburgo, ele é nomeado o violinista principal corte do arcebispado, mas o Príncipe-Arcebispo agora é outro: muito mais rígido e sem frescura: meio que decretou que as viagens e as invenções musicais deveriam acabar. Ou Amadeus andava na linha ou...
Wolfgang tinha 13 anos. Angustiado, fica quatro anos no emprego, depois larga tudo e sai pela Europa, sentindo o ventinho da liberdade na cara. Acaba se apaixonando pela cantora Aloysia Weber, mas não é correspondido. Cinco anos depois, ele casa com a musicista Constanze Weber, irmã mais nova de Aloysia. Aos 23 anos ele volta pra Salzburgo com um monte de composições, mas o Príncipe-Arcebispo o escorraça na corte, expulsando-o a pontapés.
O gênio estava pagando preço alto pela obstinação em se manter fiel aos seus princípios. O cara passa a sentir na pele o desprezo da sociedade vienense que não vibrava mais com suas obras. A grande ópera As Bodas de Fígaro foi um fracasso financeiro. Em compensação, a obra foi bem recebida em Praga, o que levou à encomenda de outra ópera: Don Giovanni. Entre os tchecos foi um sucesso, mas em Viena, foi considerada “mais uma bosta do Amadeus”.
A situação econômica de Mozart piora e a fama desaparece. Quando estava na merda absoluta, um camarada maçom (isso mesmo, Amadeus foi iniciado em 14 de Dezembro de 1784 na Loja Zur Wohlthätigkeit) encomenda a ele uma ópera para o povo. A Flauta Mágica estreou triunfante em um pequeno teatro popular na periferia de Viena. Depois disso, recebeu a encomenda de duas outras composições de vulto, o Réquiem, de um solicitante que lhe exigiu sigilo sobre a composição e desejava permanecer anônimo, e a sua última ópera, A Clemência de Tito, estreada em Praga com muito aplauso. Foi ali, em Praga, que caiu doente e nunca mais recobrou a saúde. Em novembro de 1791, ficou de cama e recebeu atendimento médico. Em dezembro pareceu melhorar, e até tocou partes do Réquiem inacabado com alguns amigos. No dia 4 teve uma piorada violenta, chamaram às pressas o médico, mas deu pra bola: lá pela uma da manhã de 5 de dezembro de 1791, o rebelde Wolfgang Amadeus Mozart morreu.
Foi velado na catedral em 6 de dezembro e foi enterrado numa vala comum no cemitério da Igreja de São Marx, nos arredores de Viena, sem ninguém a acompanhá-lo. Talvez Salieri (vá ver o filme Amadeus), Van Swieten e o aluno Süssmayr (que um tempo depois completou o Réquiem) tenham acompanhado o enterro. Não foi erguida nenhuma lápide e o local exato da tumba pra sempre vai ser desconhecido. Os obituários foram unânimes em reconhecer a grandeza de Mozart, os maçons fizeram celebrar uma missa suntuosa no dia 10 e publicaram o elogioso sermão proferido em sua honra. Vários concertos foram dados em sua memória, e alguns em benefício de Constanze. Em Praga, as homenagens fúnebres foram ainda mais grandiosas do que em Viena.
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